«Os dados nacionais mostram expansão, mas no balcão a história é outra: falta estoque, falta orientação e falta farmácia credenciada a poucos quilômetros.» — Farmacêutica em Teresina, entrevista para esta reportagem

Quando o Programa Farmácia Popular do Brasil completou uma década de operação contínua, os comunicados oficiais destacaram dezenas de milhões de dispensações anuais e a inclusão de contraceptivos e fraldas geriátricas. São números impressionantes — e, ao mesmo tempo, insuficientes para responder à pergunta que mais importa para quem trabalha no setor: quem ainda não consegue usar o programa como deveria?

Esta reportagem revisita o desenho do Farmácia Popular com foco em capitais do Nordeste e do Centro-Oeste, regiões onde a densidade de farmácias credenciadas e a qualidade da orientação farmacêutica variam de forma acentuada. Conversamos com gestores municipais, farmacêuticos de balcão e pesquisadores que acompanham o programa desde os primeiros pilotos.

O programa em números — e o que eles escondem

O Farmácia Popular subsidia medicamentos para hipertensão, diabetes, asma e outros agravos de alta prevalência. O usuário paga uma coparticipação simbólica — em geral, frações de real por unidade — e o governo federal complementa o valor junto às farmácias credenciadas. Em tese, é um modelo elegante: aproveita a capilaridade da rede privada sem exigir que o paciente enfrente filas em unidades básicas.

Na prática, porém, a credenciamento de novas farmácias desacelerou em vários estados entre 2022 e 2025. Em algumas cidades médias, o número de pontos credenciados caiu quando redes regionais fecharam unidades deficitárias. O resultado é um mapa com «ilhas de acesso»: bairros centrais bem servidos e periferias onde o paciente precisa gastar tempo e transporte para encontrar uma farmácia participante.

«A coparticipação de centavos não significa nada se a pessoa gasta quinze reais de ônibus para buscar o remédio.» — Pesquisador de saúde coletiva, UFPI

Nordeste: oferta irregular e estoque frágil

Em Teresina, Fortaleza e São Luís, levantamentos feitos por conselhos regionais de farmácia apontam rupturas frequentes nos itens mais demandados — especialmente anti-hipertensivos de primeira linha e metformina. Quando o estoque acaba, o paciente ou compra no preço cheio, ou interrompe o tratamento. Nenhuma das opções é aceitável para um programa de acesso.

As causas são múltiplas. Há problemas de previsão de demanda nas farmácias credenciadas, atrasos no repasse federal e, em alguns casos, falta de incentivo econômico para manter estoque mínimo de itens com margem apertada. Farmacêuticos relatam que o sistema de pedidos não comunica bem a demanda regional — cada loja opera quase como ilha.

No Centro-Oeste, o padrão é diferente, mas não necessariamente melhor. Cuiabá e Campo Grande têm boa cobertura de credenciadas no perímetro urbano, porém os municípios do entorno — alguns a centenas de quilômetros da capital — dependem de uma ou duas farmácias para atender populações dispersas. A logística de reposição nessas condições é um desafio que o desenho original do programa não contemplou.

Orientação farmacêutica: promessa pouco cumprida

O programa prevê que o farmacêutico oriente o paciente sobre uso correto, efeitos adversos e adesão. Essa é, em tese, uma das maiores virtudes do modelo: transformar a dispensação em cuidado. Mas em visitas a 18 farmácias credenciadas em quatro capitais, observamos que a orientação completa ocorre em menos da metade das dispensações — especialmente em horários de pico, quando o balcão prioriza velocidade.

«O programa paga pela caixa, não pelo tempo de consulta», resume um farmacêutico de Fortaleza. Sem remuneração específica para aconselhamento, a orientação vira gesto voluntário — e os profissionais mais sobrecarregados são os que menos conseguem oferecê-la.

Pesquisas da Universidade Federal do Ceará mostram que pacientes que recebem orientação farmacêutica no momento da retirada têm taxas de adesão significativamente maiores após três meses. O dado existe; a política de remuneração, não acompanhou.

O que muda daqui

Reformular o Farmácia Popular não exige abandonar o modelo de parceria com farmácias privadas. Exige, sim, três movimentos concretos: repactuar critérios de credenciamento para cobrir periferias subatendidas; criar mecanismo de compensação por orientação farmacêutica qualificada; e melhorar o sistema de informação para antecipar rupturas de estoque em nível regional, não apenas nacional.

Os números agregados do programa continuarão impressionando em apresentações oficiais. Mas acesso de verdade se mede no balcão — e é lá que o Bula Aberta seguirá olhando.

Atualizado em 12 de junho de 2026. Correções: [email protected]